Poesias de 1 a 99

Poema #23: C I D A D E

Passa o poeta com seus passos de passar o tempo
Passar o mundo e a cidade
Que passa sem passar
E passa…

Vê o poeta, com o olho clínico que se espera,
o andar das gentes,
a solidão e o frio e o vazio,
as ondas e o mar.
O barulho da multidão: faca ameaçadora.
Um golpe rápido e mortal da modernidade
ou pós-modernidade…

O caminhão da prefeitura, barulhento,
retira os restos dos cestos.

Um carro vermelho… vinho,
(o brilho do sol não ajuda a definição)
quase atropela uma jovem florista
na esquina.

De repente, como num surto ou febre ou pesadelo,
mergulha o poeta num redemoinho
e passa a passar os passos em uma rua de pedra,
a chuva chega e o abraça e ele sonha acordado.

A cidade some na neblina
Tudo é névoa e chuva
Passos sem tempo de gastar.

E é a vila de outrora
As histórias de rei menino
que contava e ouvia contar…

Num espanto se deu o passado
Num riso esqueceu-se o presente
Tudo é sossego

Ruas de pedra…

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Campista Cabral

Campista Cabral, leitor assíduo dos portugueses Camões e Pessoa, do poetinha Vinícius, herdou deles o gosto pelo soneto. A condensação dos temas do cotidiano, assim como a reflexão sobre o fazer poético, parece procurar a sua existência empírica ou, nas palavras do poeta, um rosto perfeito, na estrutura do soneto. Admirador e também leitor obsessivo de Umberto Eco, Ítalo Calvino, José Cardoso Pires, Lobo Antunes, do mestre Machado de Assis e do moçambicano Mia Couto, retira dessas leituras o gosto pela metalinguagem, o prazer em trabalhar um espaço de discussão da criação literária em sua prosa. A palavra, a todo instante, é objeto base dos contos e das crônicas. A memória, o dia-a-dia, o amor, as sensações do mundo e os sentidos e significados da vida estão presos nos mistérios e assombros da palavra.

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